Retrospectiva da cena:
Eu limpinho, cheirando a Palmolive, querendo deitar na rede com meu pai e ele lá, o minicapeta, suado, cheirando a cigarro de folha de caderno usando meu pai como o travesseiro dele! Mas meu pai é meu travesseiro, só meu... às vezes empresto pros meus irmãos (o cagão e a cagada), mas é meu!
Quando me aproximo mais um pouco da rede percebo algo pior do que o pirralho usando o meu pai. Bem pior, na verdade. Era o meu pai cantando a minha música de dormir pra ele!
Amigo, a partir daí a porra ficou séria! Virou um jogo... nos dias seguinte eu procurava tomar banho mais cedo pra deitar antes do lado do meu pai, consegui isso nos primeiros dias. Só que o primo era “Peça do Mal” e como tal era discordioso... achou bonito chegar mais cedo que eu outro dia e alugar outra vez meu pai. Porém, não posso eu, hoje, não entender meu primo, pois as músicas de ninar do meu pai e as histórias eram demais, tinha a do Cavalo Pocotó (acho que o Serginho e a Lacraia imitaram dele...), chapeuzinho vermelho que se cruzava com os três porquinhos (precursor de Shrek), uma história muito boa do gato de botas, que era 400x melhor que aquela história do livro, ele cantava Chico Buarque como cantiga de ninar e eu nem sabia... enfim: tudo o máximo! No dia em que o pivete chegou mais cedo eu não quis saber, fui deitar também, afinal meu pai tinha dois braços. Deitei e dormi.
No dia seguinte o meu primo estava o cão, acho que na cabeça dele eu tinha me aproveitado do espaço “dele”, ele queria brincar de power rangers e de cavaleiros do zodíaco! E quem é criança sabe, que isso é só desculpa pra dar umas porradas no outro, ou, no caso dele, apanhar um bocado de mim... (assim eu pensava). Começou a porrada, eu era maior que ele, porém ele era “moleque doido”, partiu pra cima de mim com uma... uma... (acho que preciso dar nome pro golpe...). Partiu pra cima de mim com um liquidificador duplo de braço, esse é um golpe muito eficaz executado por ninjas. Não tive combate, perdi.
A partir dali me dediquei no estudo do liquidificador duplo de braço, virei perito na área. Estava pronto pro próximo fight!
Se liga na cena da segunda luta [é assim que eu me lembro]: Faroeste, eu numa ponta do corredor da casa, ele na outra. Nossos olhos se encaram por um tempo. Ele começa a girar devagar os braços, começo a girar os meus, os giros vão se intensificando e ficando cada vez mais rápidos. Corre um na direção do outro, o contato estava prestes a acontecer...
(Sons altos de tapas em carne de moleque sapeca, gritos, sangue pelas paredes [brincadeira gente])
Eu tinha ganhado a minha primeira luta, graças a meus estudos calculísticos sabia que meus braços eram alguns centímetros maiores. Chegam nossas mães (elas sempre chegam, véi) e se deparam com a cena. Claro, eu fiquei como o ruim da história... mas valeu o que sentia naquele momento, só naquele momento mesmo, pois depois levei umas palmadas por ter malinado do “Suposto coitado primo menor”... Sacanagem, né?
Depois dessa a gente dormia numa boa, juntos com meu pai, afinal era muito melhor aguentar a ira pelo primo sem dar bandeira a nos enfrentarmos de novo e passar outra vez pelos chinelos e tamancos de nossas mães! Não que não tenhamos nos confrontado outras vezes, na verdade fazemos até hoje! No xadrez, na corrida, na luta, no vídeo game e em tudo o mais que surgir...
Dedico ao meu eterno Rival, meu primo Murilo Ebrahim!